Um quarto retirado de operação, uma ala hospitalar submetida a descontaminação ou um estoque ameaçado por fungos podem começar pelo mesmo ponto: umidade acumulada sobre superfícies vulneráveis. Para hotéis, hospitais, indústrias de alimentos, condomínios e gestores de grandes imóveis, o mofo ultrapassa o problema estético e passa a representar custos de manutenção, riscos sanitários e interrupções na operação.
Pesquisas desenvolvidas no Brasil e no exterior buscam enfrentar parte desse problema com tintas, cerâmicas, selantes e revestimentos que incorporam nanomateriais. Dependendo da composição, essas soluções podem dificultar o crescimento de fungos, reduzir a porosidade, repelir água ou degradar contaminantes depositados nas superfícies.

Um dos materiais estudados no país combina vanadato de prata nanoestruturado e nanopartículas de prata. “Ao entrar em contato com o micro-organismo esse material é capaz de alterar sua morfologia e metabolismo, levando à morte da célula”, explicou Andréa Cândido dos Reis, professora da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FORP-USP), em entrevista publicada pela Agência USP de Notícias.
O grupo coordenado pela pesquisadora testou o composto contra bactérias e fungos em materiais odontológicos. A mesma tecnologia também foi investigada por cientistas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) como aditivo antimicrobiano para tintas à base de água, com possíveis aplicações em cozinhas, banheiros e ambientes hospitalares.
Risco para a operação
Na hotelaria, a combinação de umidade, ambientes fechados e ventilação insuficiente favorece o surgimento do mofo em quartos, banheiros, corredores e sistemas de climatização. O problema ganha força em resorts litorâneos e empreendimentos que mantêm parte das acomodações fechada durante a baixa temporada. A maresia acelera o desgaste de materiais, enquanto a umidade persistente cria as condições necessárias para o crescimento dos fungos.

A consequência pode aparecer na indisponibilidade de quartos, no aumento das reformas e na experiência dos hóspedes. Uma análise da EHL Hospitality Business School associa a presença de mofo em hotéis a custos mais elevados de manutenção corretiva e renovação, além de impactos sobre a qualidade do ambiente interno.
Em hospitais, laboratórios e clínicas, o controle precisa ser ainda mais rigoroso. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) alerta que o acúmulo de poeira e umidade nos sistemas de climatização aumenta o risco de dispersão de fungos e bactérias associados aos ambientes de saúde.
O mesmo vale para indústrias de alimentos e centros de armazenamento. A Food and Drug Administration (FDA) destaca que o ar de uma unidade de processamento pode transportar mofo, leveduras, poeira e outros agentes de contaminação quando as condições ambientais não são adequadamente controladas.
Superfícies que reagem
A aplicação da nanotecnologia muda a função desempenhada pelo revestimento. A tinta deixa de atuar apenas como cobertura e pode receber propriedades capazes de interferir na instalação e na multiplicação dos microrganismos.
Nanopartículas de prata, cobre e óxido de zinco estão entre os materiais investigados por sua ação antimicrobiana. Os mecanismos variam: podem envolver danos à parede e à membrana celular, liberação de íons, alterações metabólicas e produção de espécies reativas de oxigênio. Com a estrutura comprometida, o fungo perde capacidade de formar e expandir suas colônias.

O desempenho não vem apenas da escolha do elemento químico. Tamanho, formato, concentração, dispersão e interação com a tinta alteram o resultado. Um estudo publicado na revista Progress in Organic Coatings comparou nanopartículas metálicas em tintas para ambientes internos e encontrou maior ação antifúngica nas menores partículas de prata testadas.
Outros nanomateriais desempenham funções diferentes. A nanosílica pode preencher vazios e contribuir para uma estrutura menos permeável em matrizes cimentícias. Revestimentos hidrofóbicos reduzem o contato da superfície com a água. O dióxido de titânio, quando ativado pela luz, pode desencadear reações capazes de degradar matéria orgânica e contaminantes.
Cobre em escala nano
Na escala nanométrica, a maior relação entre superfície e volume aumenta o contato do cobre com os microrganismos. Nanopartículas de cobre metálico e de óxido de cobre podem liberar íons, provocar estresse oxidativo e comprometer membranas, proteínas e processos metabólicos dos fungos.
Um estudo publicado na revista Progress in Organic Coatings avaliou nanopartículas de cobre, prata e óxido de zinco como aditivos em tintas à base de água para ambientes internos. Os materiais foram testados contra Chaetomium globosum e Alternaria alternata, fungos isolados de tintas contaminadas. As nanopartículas de cobre inibiram o crescimento dos dois microrganismos, e o desempenho das tintas aumentou conforme a concentração do aditivo.
As menores nanopartículas de prata apresentaram a maior eficiência naquele experimento, mas os resultados confirmaram o nanocobre como uma rota para revestimentos com ação antifúngica. A disponibilidade industrial do elemento e a possibilidade de utilizá-lo em tintas, plásticos, tecidos e superfícies metálicas ampliam o interesse por soluções à base de cobre.
“O cobre é conhecido há milênios pelo seu efeito bactericida, virucida e fungicida”, afirma Éder Lopes, professor da Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp, em reportagem publicada pela Agência de Inovação da Universidade. A equipe desenvolveu uma tecnologia em escala microparticulada, diferente do nanocobre, mas baseada na mesma capacidade do elemento de conferir propriedades antimicrobianas às superfícies.
Diferentes formulações
O cobre pode aparecer em revestimentos como nanopartícula metálica, óxido de cobre ou componente de materiais híbridos. Cada configuração altera a liberação de íons, a interação com os microrganismos, a aderência e a durabilidade.
Em pesquisa publicada em 2026 pelo Journal of Applied Microbiology, revestimentos de cobre puro, oxinitreto de cobre e dióxido de titânio dopado com cobre reduziram a germinação de esporos e a colonização por fungos em superfícies agrícolas. As formulações foram avaliadas em laboratório e em condições reais de cultivo protegido.
A exposição prolongada à umidade provocou desgaste em parte das superfícies, embora a ação antifúngica tenha permanecido em áreas com maior concentração de cobre. O resultado mostra por que eficiência microbiológica e resistência física precisam ser analisadas em conjunto antes da chegada de uma tecnologia ao mercado.
Outros nanomateriais desempenham funções diferentes. A nanosílica pode preencher vazios e contribuir para uma estrutura menos permeável em matrizes cimentícias. Revestimentos hidrofóbicos reduzem o contato da superfície com a água. O dióxido de titânio, quando ativado pela luz, pode desencadear reações capazes de degradar matéria orgânica e contaminantes.
Muito além do fungo
Pesquisadores da USP e da Universidade Estadual Paulista (Unesp) desenvolveram um revestimento formado por nanopartículas de sílica e dióxido de titânio para pisos cerâmicos. Depois de 30 minutos sob radiação ultravioleta, as peças tratadas degradaram 90% do corante utilizado para simular a sujeira. Nos pisos convencionais, o índice foi de 30%.
“Em ambientes externos, por exemplo, o revestimento pode ser útil para preservar estruturas e paredes de edifícios, pois evita o acúmulo de contaminantes”, afirmou Elias Paiva Ferreira Neto, pesquisador do Instituto de Química da Unesp, ao Jornal da USP.
Quando o resultado foi divulgado, a atividade do revestimento contra fungos, vírus e bactérias ainda seria testada. A distinção é importante: propriedades autolimpantes, antifúngicas e impermeabilizantes podem coexistir em determinadas formulações, mas não são características automáticas de qualquer produto que utilize nanotecnologia.
Controle começa na água
Nenhum revestimento elimina a necessidade de corrigir vazamentos, infiltrações, condensação, falhas de impermeabilização ou problemas no sistema de climatização. A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) recomenda que qualquer plano de controle do mofo comece pela identificação e correção da origem da umidade. Sem essa etapa, o problema tende a voltar.

Para as empresas, os nanorrevestimentos entram como uma camada adicional de proteção. Podem prolongar a conservação das superfícies, reduzir a formação de colônias e facilitar a manutenção, desde que sejam aplicados dentro das condições para as quais foram desenvolvidos e testados.
A adoção também exige avaliação técnica. Ensaios de durabilidade, aderência, atividade antifúngica, lixiviação e segurança ambiental precisam acompanhar a análise de compatibilidade com cada superfície. O termo “nano”, isoladamente, não comprova desempenho.
Ciência aplicada ao mercado
O interesse de hotéis, hospitais, construtoras, indústrias e gestores imobiliários mostra como uma alteração produzida em escala nanométrica pode alcançar custos que aparecem diretamente no balanço das empresas. O valor não está apenas em combater uma mancha na parede, mas em desenvolver materiais capazes de ampliar a vida útil das estruturas, reduzir intervenções corretivas e proteger operações sensíveis.
Ao acompanhar essas aplicações, a NanoBrasil aproxima a pesquisa científica de setores que buscam materiais com desempenho mensurável. O próximo passo para fabricantes e empresas usuárias é transformar propriedades observadas em laboratório em produtos validados para condições reais de umidade, exposição, limpeza e uso contínuo.